julho 2009


AudreyEntendo a necessidade da publicação de tantos  “guias” explicando para pessoas o que elas devem ou não fazer afim de não ofender as regras da boa educação e da convivência em sociedade.

São conselhos absolutamente óbvios mas  acho que estão adquirindo nova profundidade à luz de alguns dos atuais comportamentos. Coisas que incomodam à alguns podem nem ser notadas por outros e pensando nisso, em um exercício de catarse, decidi falar de algumas atitudes que abomino.

A da senhora e do garoto que “navegavam” tranquilamente em seus celulares durante o filme como se estivessem em sua sala de estar, ou  da moça que comia pipoca de boca aberta permitindo que o cinema inteiro ouvisse o crósh, crósh de sua mastigação; do cara que rouba sua vaga no estacionamento embicando o carro enquanto você manobra ou daquele que ocupa o espaço reservado aos deficientes e sai lépido e fagueiro de seu automóvel.

Ainda no caso de motoristas, ninguém mais inconveniente do que aquele que estaciona seu carro em 45 graus sobre a calçada obrigando os pedestres a passarem pelo meio da rua. Isso geralmente acontece em frente à farmácias e consultórios médicos como se estar doente justificasse a falta de consideração com os outros. Deve ser a profunda dor provocada pela falta de cérebro que os impede de pensar direito.

Jovens e não tão jovens sentados no metrô  que fingem dormir para não terem que ceder o lugar às mulheres grávidas ou aos idosos;  gente que chega na maior cara de pau e cumprimenta efusivamente um “amigo(a)”  que está mais próximo de ser atendido e ali fica, furando as imensas filas que se formam diante dos caixas nos bancos ou no supermercado.

Gente que na hora do almoço ocupa mesa na área de alimentação do shopping e fica lendo jornal  sem comer nada nem dar lugar para quem quer fazer uma refeição;  gente que fala alto no celular nos obrigando a ouvir suas conversas desinteressantes ou confidências constrangedoras, ou gente que “esquece” de desligar o aparelho no cinema, teatro, sala de aula, velório, etc. Infelizmente tudo isso já faz parte de nosso cotidiano.

Sempre que vejo uma mulher trabalhando de mini blusa e calças justíssimas de cintura baixa, deixando dois palmos de barriguinha (ou barrigão, na maioria dos casos) pra fora penso que ela está no lugar errado. Se você não é stripper, não está na praia ou na balada com seus amigos, porque vestir-se assim?  Será que pouca roupa aumenta a produtividade?

O mesmo vale para homens com aquelas calças ou bermudas que deixam um pedaço da cueca aparecendo e um pedaço da bunda idem.  Não sendo gogo boy, qual interesse em mostrar seu traseiro peludo no local de trabalho?

Se você é frequentador de academia nada mais lógico do que levar sua toalha e ir se enxugando durante os exercícios, não é? Então porque um jornal de grande circulação de São Paulo precisa publicar um guia dizendo que não se deve deixar o suor encharcar os aparelhos usados? Falta de assunto ou necessidade?

Mas o que posso ou devo fazer nesses casos? Reclamar? Fazer cara feia?  Tentar educadamente explicar que aquilo não é adequado? Fingir que não estou vendo  e ir cuidar da minha vida?

Minha vontade muitas vezes é ignorar as boas maneiras e a educação, voltar à selvageria e chutar a lataria do carro do folgado; arrancar o celular da mão da navegante idiota e botar um esparadrapo na boca dos que falam alto no tal celular.

Mandar a mastigante fechar a boca; riscar a lateral do carro do ladrão de vagas; puxar o adormecido do banco do metrô; arrastar o fura filas pelo cangote; colocar minha bandeja de almoço em cima do jornal do “leitor” e empurra-lo da cadeira. Obrigar a moça exibicionista a usar uniforme bem feio daquele tipo saia folgada e camisa branca com gravatinha e o mostra-bunda a usar terno.

Claro que os dois últimos parágrafos não podem ser postos em prática sob pena de sermos chamados de intolerantes ou  colocados em camisa de força e imediatamente internados, mas que dá vontade, isso dá.

Entretanto, como sou uma lagartixa muito lady, me controlo  e fecho os olhinhos imaginando como o mundo seria melhor se as pessoas tivessem um pouco mais de consideração.

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odiaemqueaterraparouAcordei, olhei o relógio e quando vi no mostrador a marca de 10:00 horas pensei “morri”.

Morri e comigo morreram todos os cachorros do prédio, os vizinhos, a empregada do apartamento de cima, as crianças do apartamento do lado, ou quem sabe o mundo acabou e não me avisaram? Comecei a me divertir com os pensamentos toscos e demorei mais 10 minutos na cama enumerando mentalmente todas as razões para aquele silêncio misterioso, incluindo novas imagens para o filme O dia em que a Terra parou.

Aqui no prédio as coisas começam bem cedo: a empregada do vizinho de cima chega pontualmente as 8:00 horas sendo sua primeira tarefa passar o maldito aspirador que produz um barulho imenso, vibrando e roncando em cada centímetro de soalho aspirado; para minha felicidade ela invariavelmente começa a limpeza pelo quarto. Os cães do outro vizinho gostam muito de sair de manhãzinha chova ou faça sol e, é claro, saúdam cada ruído real ou imaginário com latidos altos e descontrolados na frente do elevador; as  crianças vizinhas precisam sair as 7:30 para ir à escola sendo que bater portas e gritar é sinal de alegria e vitalidade matinal não é mesmo?!

Alguém pode estranhar a reclamação por ter que acordar por volta de 8 da manhã sendo que tanta gente levanta as 5 ou 6 para ir trabalhar. Acontece que por um capricho da natureza, começo a funcionar à partir das 10 da manhã e fico “acesa” até mais ou menos 2 da madrugada. É  no período que vai de 16 horas até aproximadamente 1 hora da manhã que sou mais produtiva e aí aproveito para trabalhar, ler, escrever, estudar, assistir filme, cozinhar, preparar projetos de trabalho, ir às compras, etc…

Sempre foi assim e, quando precisava levantar cedo para ir trabalhar fora de casa, era um zumbi no ônibus e na escrivaninha até que meu ser despertasse para a vida; então o mal humor passava por encanto e eu era toda simpatia e produtividade pelo resto do dia.

Nas primeiras horas  do expediente tinha que me esforçar muito para superar o fato de que estava lá só de corpo presente e que meu espírito ainda vagava pelo mundo dos sonhos; tive a sorte de conseguir também alguns empregos de meio período – á tarde, é claro.

Trabalhar em casa é uma oportunidade de fazer o próprio horário, mas infelizmente tenho que participar ativamente do madrugar dos meus vizinhos, conseguindo dormir apenas 4 ou 5 horas por noite devido aos caprichos do meu relógio biológico.

Foi por isso que o silêncio dessa manhã gloriosa me deixou tão feliz. E foi por isso que contracenei tão dedicadamente com Klaatu; foi por isso que mais uma vez pensei em me mudar para o meio do mato com meus livros, meu PC e nada mais, além de uma antena parabólica, off course, que ninguém é de ferro.

fawcettn_lMais ou menos aos 6 ou 7 anos decidi ser cantora. Escolhi ser americana e inventei um nome: Mary Simens, que para mim era nome de cantora famosa e totalmente anglicano.

Ia para o quintal de terra, subia na laje que cobria o poço e estava no palco; a vassoura ou o rôdo eram meu microfone de pedestal; qualquer pedaço de pano velho era traje de gala e pronto: lá estava a maior cantora de todos os tempos, uma magricela desafinada e cheia de energia.

Sendo americana, é claro que cantava mais em inglês…um idioma inventado ali na hora, sem pé nem cabeça mas que soava extremamente estrangeiro aos meus ouvidos brasileiros e incultos.

Eram os anos 50 e nas matinês do domingo assistíamos empolgados a filmes de Roy Rogers que tinha um cavalo branco e  Zorro,  o mascarado de bigodinho. Roy gritava “aiiiôôô Silveeerrrr” e empinava 0 cavalo na beira de um barranco; era emocionante! Zorro assoviava e o cavalo vinha correndo para que ele pulasse na sela e saísse em disparada atrás dos malfeitores e a criançada sempre aplaudia essa cena! Essas eram as minhas referências para o inglês: o rádio transmitindo músicas em AM e o som horroroso dos filmes que passavam lá no pulgueiro.

A carreira internacional durou pouco. Logo meus pais começaram a censurar porque, com tanta música brasileira bonita, eu dava preferência às músicas estrangeiras e ficava cantando coisas que ninguém entendia. Já que eu ia seguir a vida artística que pelo menos fosse mais patriota! Não aguentando as críticas  mudei de profissão: montei uma barraca em frente ao caminho que as formigas percorriam e fui ser feirante, vendendo folhas de mato, pacotinhos de lama e latas vazias.

A segunda vez que quis ser americana foi nos anos 70 quando começou a ser exibido na televisão brasileira o seriado “As Panteras”. Eu queria ser  Jill Munroe, a personagem interpretada por Farrah Fawcett. Linda, loira, sensual, divertida…

Então, depois de avaliar as minhas possibilidades de ser linda, sexy e divertida, decidi ser loira.

No sábado chamei uma amiga e fomos para o cabeleireiro do bairro. Eu ia virar Jill e minha amiga,  Sabrina. Havia alguns  inconvenientes: meu cabelo era liso, castanho e nunca havia sido tingido, mas nem por isso eu iria desistir . 

Sentei confiante diante do espelho, entreguei minha cabeça nas mãos daquele profissional competentíssimo, e a tranformação começou: tesouradas impiedosas cortaram camadas arrepiadas e fizeram surgir um tipo de franja caindo sobre um olho; quando chegou a hora de fazer a tintura, como o cabelo era escuro, dá-lhe forte descoloração.

Muitas horas depois havia no espelho uma garota loira, com grandes mechas  mais claras dando ao cabelo aquele ar dourado de praia; cachos largos, despenteados e cheios de spray me faziam parecer uma vamp do subúrbio, mas eu estava feliz. O cabelo era mais ou menos parecido com aquele que eu via e invejava nas fotografias da Farrah.

A carreira de pantera, assim como a de cantora estrangeira, durou pouco. Para ser exata, durou o tempo de chegar em casa. Sentindo muita coceira no couro cabeludo resolvi lavar a cabeça e tirar o spray.

E então o cabelo caiu…Não somente alguns fios, mas todas as lindas mechas mais claras, onde a descoloração havia sido mais forte, saiam inteiras nas minhas mãos. Caía cabelo aos montes e eu chorava. Meu pai que queria uma filha patriota mas não careca, estava disposto á ir botar o salão abaixo e foi contido por minha mãe que por sua vez não sabia o que fazer além de dizer que eu não me preocupasse porque ia nascer tudo de novo.

Ela tinha razão. Nasceu sim, mas nunca mais tive aquele cabelo farto e brilhante de antes. Dali para a frente me restou ser  Sabrina, a pantera  morena e “inteligente”  com um cabelinho mingado cortado estilo chanelzinho sem graça.

Depois disso nunca mais quis ser americana.

canoaCanoa furada não é aquela embarcação que te deixou na mão no meio da correnteza. Canoa furada é um tipo de coisa que você poderia facilmente evitar, mas na qual que sabe-se lá porque, embarca de cabeça.

Você resolve, por exemplo, acompanhar aquela  sua conhecida ao médico porque  coitadinha  ela não tem ninguém que vá junto. Daí você sai de casa debaixo do maior aguaceiro do ano e vai toda solícita fazer sua boa ação. É recebida de cara feia porque atrasou cinco minutos, mas como tem uma reserva de paciência extra, deixa pra lá com um sorriso cheio de boa vontade.

No trajeto sua companheira de viagem, que acha que conhece todos os caminhos da cidade, erra ao dar as indicações para o motorista do taxi,  e dali em diante é uma sucessão interminável de resmungos em voz chorosa do tipo: “meu Deus do céu”, “onde vamos parar”, “o senhor entrou errado”, “vamos chegar atrasadas”, “eu falei ali”,  “olha só que volta”, “estamos fazendo um passeio turístico”, etc, etc. . .

É nesse momento que você descobre que aquilo é uma canoa furada. Não adianta argumentar que estão bem adiantadas para o horário da consulta ou que o desvio foi pequeno; temeridade dizer à simpática senhorinha que foi ela que falou que era pra entrar ali. A sorte é que o motorista é um sujeito super gentil que não obriga as duas a descerem no meio da rua; você baixa a cabeça e  silenciosamente dá graças a Deus por ainda existir pessoas legais dirigindo taxis em São Paulo. Não há mais nada a fazer…

Pode também acontecer daquela amiga, que você não vê há anos, ligar e te chamar para um evento grátis. Ela não dá muitas explicações, só diz que é uma palestra, seguida de brunch, sobre vida saudável e rejuvenescimento. Você ingenuamente pensa que oba, vou ficar mais jovem, não tenho que me preocupar em fazer almoço e além de tudo o convite contém a palavrinha mágica: “grátis”! Não importa que seja num lugar do qual você nunca ouviu falar, que comece as 9 horas do domingo e que seja longe de sua casa. É de graça e ela é a sua amiga que gentilmente lembrou de você depois de tanto tempo. Como recusar uma oportunidade dessas?

Então você pega o metrô e depois um ônibus; desce do ônibus e anda mais 5 quadras a pé pensando em como é que àquela hora da manhã pode fazer tanto calor meu Deus e que deveria ter posto um chinelo de dedo que assim seu pé não doeria tanto. Finalmente chega ao local do “evento” e dá de cara, bem ali no saguão, com várias mesas expondo caríssimos produtos naturais que foram cientificamente testados e prometem fazer seu intestino funcionar, limpar seu organismo e proporcionar uma vida longa e saudável.  Ao lado dos alimentos miraculosos uma pilha de livros que foram escritos por um médico japonês ou chinês e que fizeram enorme sucesso contando sobre esse método maravilhoso de rejuvenescimento. Você nunca ouviu falar de nada disso, mas o mundo é cheio de novidades, não é?!

Com calor, suada e com os pés doendo horrivelmente você respira fundo – o que é um erro já que o recinto cheira a mofo – e procura um lugar para sentar.  Acontece de ser bem ao lado de alguns dos maiores entusiastas da técnica do “faça muito cocô e seja feliz”; para sua total alegria, eles vão aplaudir calorosamente tudo o que os promotores de venda estão dizendo lá no palco;  vão fazer comentários entusiasmados incentivando para que você compre tudo; provavelmente deduziram que sua aparência cansada se deve ao simples fato de que você não vai ao banheiro fazer o “número 1” com a frequência devida. Apesar do ódio em seu coração você sorri para sua amiga e diz que é uma pena não ter dinheiro para investir naquelas maravilhas; se despede  e vai embora pensando, enquanto a água sobe dentro da canoa, em como pode embarcar em mais essa .

Encontro arranjado por amigos que acreditam, talvez com uma certa dose de razão  que você está encalhada, festinha infantil,  reunião no salão de festas do prédio, convite para conhecer um novo restaurante com culinária exótica sendo que você odeia pimenta e temperos fortes,  servir de modelo para amiga que está fazendo curso por correspondência de cabeleireira e manicure, flertar com um sujeito que te leva para assistir filme de arte iraniano com legendas em sanscrito …a lista é longa.

Às vezes me pegunto porque sempre embarco de cabeça nessas coisas. Só pode ser distração ou, como dizia minha sábia avó, miolo mole!!