dezembro 2009


Ordinário é um adjetivo com vários significados, conforme o dicionário Houaiss.  Pode querer dizer ” comum, habitual, regular, medíocre, de má qualidade, sem valor“… Metafóricamente pode significar alguém “cujo valor moral ou intelectual é fraco, menor; mesquinho, reles, inferior” ou “de má índole; sem caráter; reles, ruim“.

A Padaria Dona Deôla fica à uma quadra de minha casa. É um lugar que frequento habitualmente; está ao lado de um grande hospital, muito próxima de uma sinagoga, dois grandes colégios e um shopping center de luxo.  E foi aí, onde compro pão e leite, que uma discussão acabou em morte.

Está se tornando “comum” que pessoas encerrem suas pendengas de maneira violenta. Apenas a arrogância gigantesca pode explicar porque alguém se acha tão importante à ponto de decidir que a ofensa recebida só pode ser resolvida com a morte do ofensor.

É preciso ser uma pessoa de “má indole, sem caráter, reles, ruim” para pegar uma faca ou qualquer outra arma, atacar e tirar a vida de alguém desarmado, ou cuja única arma é a palavra.

E preciso ser alguém  ” cujo valor moral ou intelectual é fraco, menor; mesquinho, reles, inferior” para sentir tanto desprezo pela vida à ponto de sair andando calmamente após ter cometido assassinato.

É preciso gerenciar de maneira bem “medíocre” para permitir que clientes sejam maltratados  e mesmo após reclamação deixar o funcionário no mesmo lugar. É preciso muita cara de pau para dizer que no estabelecimento existe “orientador de salão” e não “segurança”.

É tudo, lamentávelmente, muito ordinário!

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Querido (ou não, tudo vai depender da sua resposta) Papai Noel

O senhor deve trocar figurinha com seu Superior porque sabe tudo o que a gente faz durante o ano. Por isso não preciso contar que fui uma pessoa legal, pratiquei boas ações, defendi as criancinhas, os velhinhos, os bichinhos  e as plantinhas.

O senhor está informado (Ele deve ter contado) que num momento de loucura decidi fazer uma reforma básica do piso aqui no apê na tentativa de não matar meus cachorros mijões de não estressar quando meus animais de estimação fazem suas necessidades aquáticas pela casa toda .

Mas o senhor sabe, uma coisa puxa outra e precisei fazer também uma reforma na parte elétrica da cabana. Fiquei super falida feliz porque pensei que iria resolver o problema dos milhares de fios pretos esparramados debaixo da mesinha de trabalho.

Doce ilusão, querido velhinho! O que consegui foi um novo problema : o governo aprovou a fabricação de uma tomada num formato esquisito, que não aceita quase nenhum dos plugues existentes. Resultado: a medida favorece só os fabricantes de tomadas e “adaptadores”. Pra esses o senhor nem precisa dar presente; já receberam antecipado.

Continuo com o problema antigo e acima está a foto que é auto-explicativa.

Então Papai Noel, o que quero de presente neste Natal é simples: um computador igual  á esse ai do lado. Já falei sobre ele. É fabricado pela Dell, chama Studio One 19 e custa uma bagatela (para o senhor que não está reformando o Pólo Norte, é claro).  Está vendo que ele não tem fio? Está vendo que tem na cor vermelha? Está entendendo que com tudo o que gastei na maldita reforma fiquei sem dinheiro para comprar? Dá para entender que não aceito desculpas?

O senhor tem meu enderêço e pode mandar entregar antes do Natal se quiser. Se fizer isso continuarei a ser uma boa senhora e pode ser que até doe o meu PC aranha para uma instituição de caridade.

Se não fizer deixo de acreditar na sua existência e, quando meus futuros netos perguntarem à seu respeito,  vou me fazer de louca e responder “Sei lá! Se existe não entende nada de computador”

Cada vez que reclamo sobre alguma coisa da reforma escuto de volta: “ah é assim mesmo!

Flávio, o empreiteiro, disse que na primeira semana vai tudo bem, na segunda algumas coisas começam a incomodar, na terceira o stress é grande e na quarta, finalmente a paciência do cliente acaba. Deve ser por isso que sempre pedem um mês para executar as obras; na hora da explosão fatal tudo já deve estar quase terminado. No momento estamos na quinta semana, o que pode dar uma idéia do clima reinante.

Batendo de frente com um prestador de serviços cujo método de trabalho não me agradou, e que insistiu em ter razão ignorando qualquer argumento contrário e encontrando desculpas para fazer as coisas à sua maneira, explodi na segunda semana…

Depois de mais duas semanas de paciência só restou trocar de profissional enfrentando o risco de ter uma pessoa nova para assumir na reta final e terminar o serviço. Por isso é bom ter um empreiteiro: eles sempre trabalham com várias equipes e podem fazer a substituição quando necessária.

O que fazer se uma empresa não entrega a peça encomendada sob medida? Como agir se a cada vez que ligamos ouvimos a garantia de que “até o final do dia” ou “no máximo ate amanhã” o problema estará resolvido, mas os dias vão passando e nada da encomenda ficar pronta? Cancelar? Gritar? Xingar a mãe do gerente, do vendedor, do transportador? Sentar no meio do caos e chorar?

Por conta de um maldito e fedorento esmalte sintético da Coral estou dormindo novamente no sofá “pé pra fora”. Essa tinta foi aplicada na porta do quarto para “resolver um problema” e, mesmo depois de 4 dias, o cheiro continua insuportável, me obrigando a ficar o mais longe possível! É por isso que só uso tintas à base de água: elas não têm cheiro, não me dão dor de cabeça nem náusea e não provocam alergia. Me arrependo de ter acreditado nos argumentos do pintor (que era da equipe daquele que dispensei)…

O que mantém minha sanidade são os vislumbres aqui e ali de como tudo vai ficar lindo quando estiver pronto.

Assim nem vejo as várias tomadas elétricas pulando pelos buracos da parede, nem a solitária lâmpada pendurada no teto de minha sala por um único fio, nem as 9 portas que estão à espera de pintura (à base de água, of course), nem a torneira da pia da cozinha que foi retirada e não recolocada (no lugar está uma torneirinha provisória que não pode ser usada).

Também tento não me preocupar com a bancada de vidro do banheiro que não há meio da “SOS Vidros” entregar, nem com os armários da cozinha que estão reformados pela metade e espalhados pela casa, nem com o escritório que ainda não foi pintado.

Procuro não pensar no armário do banheiro que não foi orçado até agora porque depende da bancada de vidro que não foi entregue, nem na falta de finalização da colocação dos azulejos, da pia e da torneira do banheiro que dependem da famigerada bancada de vidro, nem no transtorno que será hospedar por dois dias os cachorros em hotel e eu com 3 gatos na casa da minha irmã (que tem uma gata velha e cega),  para que possam aplicar Epóxi, que tem um cheiro insuportável, nos azulejos da cozinha, nem………BBBUUUMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Marginal do Tietê próximo à ponte do Piqueri

Acho que nunca falei sobre a Zilmara, a moça diarista que trabalha aqui em casa, então vou apresentar pra vocês: baixinha, mãe de 3 adolescentes, sempre de bom humor, nunca falta ao serviço.

Ontem  era dia dela vir. Morando no bairro do Jaraguá, a Zil saiu cedinho de casa pra enfrentar o dilúvio, mas não teve jeito. As 8 da manhã ela (que comprou um celular no mês passado), me liga:

— Dona Lagartixa, eu estou no ônibus, perto da Edgard Facó. Tá tudo parado por causa da chuva…

— Nossa. Tá tudo inundado, né?! Será que você consegue chegar aqui?

— Acho que dá, sim. Vou ficar aqui esperando, se a senhora precisar sair pra sua reunião pode ir. Eu vou chegar atrasada mas chego.

Meio dia o telefone toca outra vez:

— Dona Lagartixa, é a Zilmara. Olha, ainda estou na Edgard Facó, desde aquela hora que liguei o ônibus andou só um pouquinho. Acho que não vai dar pra chegar não… vou voltar pra casa.

— OK. Volta sim…Mas como vai fazer pra sair daí?

— Vou descer aqui na Ponte do Piqueri e andar até o terminal Pirituba. Dá umas duas horas andando…

— Credo!

— É que só lá consigo condução prá minha casa…

— Tá bom.

Hoje ela chega com o bom humor de sempre contando as novidades.

— Dona Lagartixa, ontem eu tava trazendo bolo de milho pra senhora, daquele que a senhora gosta.

— Hummm…ceeerto…

— Mas deu fome e reparti o bolo com o pessoal que estava no ônibus. O cobrador saiu na chuva pra pegar café e todo mundo comeu, foi a maior festa!…e caiu na gargalhada…

Isso que é solidariedade!

E bom humor…

(A foto foi gentilmente copiada do site Folha Online e o fotógrafo é Oslaim Brito)

Começo a acreditar que a sexta-feira atrai mesmo um pouco de azar.

Aparentemente esse é o dia da semana que trabalhadores em geral dedicam para enfrentar “sérios, inesperados e inadiáveis problemas particulares” que os impedem de trabalhar.

Deve haver causa esotérica poderosa, muito além da minha tosca compreensão, justificando esse fato.

Para evitar que a esperança de terminar certas obras  no prazo combinado continue sendo destroçada com um simples telefonema (e as vezes nem isso), estou quase sugerindo que, seguindo o exemplo de nossos sábios representantes em Brasília, a semana acabe na quinta feira.  Assim ficariam 4 dias mais ou menos úteis para os prestadores de serviços cumprirem suas promessas.

Evitaria muito stress, mas por outro lado, limitaria o uso da imaginação e criatividade de alguns. Estarei condenando grandes talentos ao ostracismo?

Lentamente vou recuperando os espaços dentro da casa. Já tenho a cama e um pedaço do quarto de volta, ou seja, não durmo mais estilo “pé pra fora” no sofá. A sala também ficou metade disponível e o banheiro pode ser usado, desde que com cuidado. Aos poucos os pedreiros vão abrindo caminho para minha vida voltar ao normal.

Foi pensando nesses pequenos avanços que sai para passear com os cachorros e, talvez porque “espaço” esteja na ordem do dia olhei melhor as ruas aqui por perto. E fiquei espantada! Na quadra antes da minha casa abriram, nos últimos seis meses, 3 restaurantes chics que se juntam a um bistrô, um de comida contemporânea, um “por kilo”, uma pizzaria, um chinês delivery e um botecão, já existentes. Na quadra em que moro, outro botecão e uma casa sendo reformada para mais um restaurante, bem ao lado de uma doceria, um restaurante italiano, um de comida caseira e outro “por kilo”.

Tendo dinheiro não passarei fome…mas o problema é que também não andarei tranquila pelas calçadas. O costume por aqui é estacionar sobre as calçadas nas porta dos distintos estabelecimentos para pegar os clientes e o pedestre que se dane. Será que os fregueses sabem que é proibido estacionar na maioria das ruas próximas? Será que sabem que os manobristas largarão seus carrões  provavelmente em locais proibidos? Salvo o povo trabalhador das redondezas, que vai à pé nos botecos e nos “por kilo”, o resto vai ajudar, com as multas, a  encher os cofres da prefeitura que está expedindo alvarás de funcionamento à torto e a direito sem se preocupar com nada, como sempre.

Prá mim está tudo bem. Fecho a cara e olho feio para os seguranças e manobristas e fico esperando que tirem o carro para poder passar. Se me encaram, solto o tradicional “a calçada é do pedestre e não é estacionamento!”. Nenhum resistiu até agora, e os resmungos me fazem rir secretamente. Pensem que tenho menos de 1,60m, já sou quase uma “Idosa” e ando com um poodle e um maltês. Percebem o ridículo da cena?

Podem me chamar de chata, mas fico pasma com a atitude de certas pessoas.

Primeiro de dezembro é o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, data escolhida em 1987 pela Assembleia Mundial de Saúde com apoio da ONU. Se 22 anos depois ainda precisamos ser lembrados que devemos tolerância, solidariedade, compaixão e apoio às pessoas infectadas pelo HIV e que precisamos reforçar as ações de prevenção, alguma coisa não vai bem não é mesmo? Isso tudo já devia fazer parte do nosso cotidiano, mas lamentávelmente não é bem assim.

Acompanhei no Twitter as mensagens de hoje e, por incrível que pareça, muitas eram piadinhas sobre a doença. Se pensarmos que nessa rede social a maioria tem menos de, digamos, 35 anos e vivem em grandes centros urbanos, a coisa fica bem feia; jovens cosmopolitas supostamente deveriam ser mais bem informados…

Observando as estatísticas dá para entender que atualmente as maiores vítimas de novas contaminações são as mulheres:  se até 1986 havia 15 homens infectados para cada mulher, em 2003 os números mudam drasticamente:continuam os mesmos 15 homens, mas o número de mulheres vai para 10. A contaminação está aumentando entre mulheres na faixa etária de 13 a 19 anos, quer dizer, entre as muito jovens.

Qual o significado disso tudo? Uma das possíveis resposta é que as mulheres não estão levando essa questão á sério. Seja porque confiam no parceiro, seja porque eles se recusam a usar o preservativo e elas ficam com medo de ofender e perder o marido, o namorado, o amante, o caso, o rôlo, o ficante, etc; sentem vergonha de pedir e parecer “sabidas” demais; muitas acreditam que estão em uma relação monogâmica (e às vezes estão mesmo) mas esquecem que os sintomas podem demorar anos para aparecer e elas ou eles não sabem o que se esconde no passado.

Forçar, mesmo que indiretamente, a mulher a manter relações sexuais sem proteção é um ato da mais pura violência.

Falando nisso, 25 de novembro foi o Dia Internacional da Não-Violência Contra as Mulheres e que ninguém fique se iludindo pensando que as mulheres sofrem apenas violência física. Apesar desta  ainda estar muito presente,somos agredidas das mais diversas formas e de maneiras muitas vezes disfarçadas.

Espera-se que as mulheres cumpram o padrão estético das modelos photoshopadas e ridiculamente retocadas para atingir um certo ideal de “perfeição” inexistente e ao lado está  a foto de Juliana Paes que não me deixa mentir. Ser gorda nem pensar, envelhecer jamais…

Pagam-se salários 35% menores para as mulheres em cargos e serviços equivalentes; ainda existem profissões  consideradas “femininas”, como por exemplo, educação infanto/juvenil ou enfermagem. Ouvi relato sobre discriminação contra uma médica  que tentou vaga para fazer especialização em neurocirurgia; foi-lhe dito que esse era um trabalho para homens e sua admissão foi negada. Várias mulheres que estão trabalhando na área de informática denunciam que são olhadas com desconfiança e/ou consideradas lésbicas, porque onde já se viu mulher entender de computador?!

Aliás, chamar de lésbica a mulher que foge dos padrões “ternurinha-forno-e-fogão” é a coisa mais comum. Mulher que não quer casamento nem compromisso sério invariavelmente será chamada de puta em alguns círculos. Mulher que não quer ter filhos será olhada com estranheza… Enfim, a lista dessas violências disfarçadas é imensa!

E que não se culpe apenas os homens – o mundo está cheio de mães, irmãs, esposas, namoradas e amigas educando sucessivas gerações para darem continuidade à tudo isso. Feminismo tosco é muito chato, mas machismo às avessas é lamentável.