Resmungos


gráfico O mercado de construção civil está em franca ascenção graças, principalmente, ao bairro onde moro e ao prédio onde habito. Pedreiros, encanadores, pintores, empreiteiros e ajudantes em geral devem estar enriquecendo rápidamente e terão um Natal animado.

É impressionante o número de reformas por aqui. O povo nunca está satisfeito com o imóvel que comprou ou  alugou, mesmo que tenha sido recém reformado ou construído.

Derrubam tudo: paredes, banheiros, azulejos, cozinhas, áreas de serviço, muros; fecham janelas em uma parede e abrem em outra, destroem pisos, criam novas portas, botam telhados abdemolição1aixo e, suprasumo da modernidade capenga, alguns forram as telhas com uma manta prateada que deixa as casas com cara de OVNI.

É o paraíso dos quebra-quebra e das demolições. O serviço em geral começa logo cedo, mas existem excessões.

Em uma obra vizinha o pedreiro aparentemente exerce outra atividade no horário comercial, entre as 8 e as 18 horas porque, aproveitando o horário de verão, ele chega diariamente as 18:30h e começa a demolir um muro ou udemolicao3m pedaço de parede usando a ferramenta da moda: a britadeira, enquanto o sol brilha feliz. Tenho que reconhecer o esforço honesto do rapaz nessa dupla jornada, mas confesso que sinto ganas de descer e socar aquele rostinho provavelmente coberto de pó de cimento.

No apartamento de cima, em reforma atualmente, derrubaram quase todas as paredes, tiraram portas, arrancaram todo o piso, destruíram os banheiros, a cozinha e a área de serviço, sempre usando, preferencialmente, outra ferramenta muito em voga: a marreta.

Se vocês pensarem que, exceto nas paredes dos quartos e sala, todas essas áreas são cobertas de azulejos e pisos cerâmicos colados com um material super resistente, elaborado provavelmente no inferno e com o aval do demo, podem imaginar o nível de barulho produzido das 9 as 16:30h com pausa de 30 minutos para almoço.

As pancadas são tão fortes que derrubam objetos da minha estante; os animais que dividem o espaço comigo fogem assustados, procurando esconderijos; eu estou á beira de uma crise de nervos; os outros vizinhos também já cansaram de reclamar, então apenas esperam resignados que a obra termine.malas

Adianta reclamar? Claro que não! Eles “precisam” quebrar, destruir, recontruir e se eu não estou satisfeita, fazer o que? Me mudar até que a obra termine? Se os futuros vizinhos quiserem podem me oferecer  hospedagem em uma casa de campo com todas as despesas pagas que aceitarei com o maior prazer.

LoftSe o proprietário quer transformar seu apartamento recém adquirido em loft ou juntar espaços, que se ponham as paredes abaixo sem a menor cerimônia; “o engenheiro garantiu que é seguro”, esses novos vãos enormes “não vão comprometer a estrutura do prédio”ou “a senhora pode ficar tranquila”. As frases estão ali, na ponta da língua daqueles a quem pedimos explicações. Acredito que naquele prédio que ruiu no Rio de Janeiro durante uma reforma também não havia “motivos para preocupação”. Não que eu queira ser fatalista, mas seguro morreu de velho.

Realmente me falta inteligência para entender o porque de tanto descontentamento com a planta original dos prédios. Desejando um apartamento ou casa com uma cara totalmente diferente da que existe, porque compraram essa? Mudar uma cor de parede, um acabamento de banheiro, fazer uma suíte para maior conforto, uma coisinha aqui e ali para satisfazer o gosto e a necessidade pessoal é compreensível, mas construir um imóvel completamente novo?  Isso acontece em muitos prédios e duvido que exista morador feliz com essa situação.

Tornei-me  “a chata” simplesmente porque não suporto mais horas e horas diárias de barulho ensurdecedor.

Que os novos vizinhos que nem conheço me perdoem, mas eu não sinto amor por eles nesse momento. Detesto também todo mundo que acha essas obras “normal”. Fiquem sabendo que nem ligo de ser a “reclamona”  e que meu humor está vários níveis abaixo de zero; não é preciso desenhar um gráfico para explicar os motivos.

Talvez no futuro, se vier a conhece-los melhor e descobrir que eles são pessoas muito simpáticas, possa gostar deles.

Mas por enquanto, tomara que o Papai Noel não traga nenhum presente para eles; que chova se eles forem passar o Reveillon na praia; que faça o maior calor se forem atrás de neve, e que no próximo ano, quando eles já estiverem instalados aqui no prédio, o vizinho do andar acima do deles faça uma reforma monumental, digna de figurar no Guinness.

No mais, muita paz, saúde, amor e felicidade.

Querido Papai Noel

Não queria começar reclamando, mas esse ano foi complicado, principalmente nos últimos meses então trate de me atender. Fui uma boa moça e me comportei bem e por isso vou pedir os presentes e você vai trazer, tenho certeza.Segue a lista:

Miss1 – Quero presente de miss: paz mundial e aproveito para agradecer à minha família, sem a qual eu não estaria aqui, etc, etc (o senhor conhece o discurso, elas repetem igualzinho todo ano).

2 – Quero presente utópico: fim da corrupção e da impunidade neste país, ou seja, políticos honestos ou um monte de Joaquins Barbosas com suas caras de mau, convicção firme e destemor.

3 – Quero presente de malcriada: paz d’sprito,  que é o que respondo para todos que perguntam o que eu quero de Natal.

4 – Quero presente de véia: sossego. Tô de saco cheio  Estou cansada desse trânsito, calor, gente chata, corrente de oração na internet, povo que fala mal de política e dos políticos mas vai lá e vota de novo nos mesmos, violência, homofobia, machismo, e por aí vai. O senhor é velho sabe o que vai no coração das pessoas e pode descobrir o que nos desagrada.cinturinha

5- Quero presente de gordinha: uma cinturinha de vespa, barriga apenas levemente arredondada e lembre-se que odeio exercício físico, além de ter pés delicados que não toleram tênis e um ombro de merda complicado. Traga o kit saudável junto.

6 – Quero presente de condômino: fim das malditas reformas nos apartamentos vizinhos. Ninguém nunca está satisfeito, derruba tudo só prá fazer de novo e vou ficando cada vez mais louca com o barulho! Se esse povo quer morar em loft tá fazendo o que aqui?

7 – Quero presente de sorte: ganhar na Mega-Sena. Muitas vezes certo? Tenho que fazer um  monte de coisas e ajudar um monte de gente com o dinheiro, então não economize querido velhinho e não me deixe esquecer ninguém prá não ser amaldiçoada pelos ingratos que não respeitam a idade das pessoas e não entendem que elas esquecem e não é por maldade, e…

Bigbang8 – Quero presente de profecia maia: se o mundo acabar mesmo no dia 21 de dezembro, faça o favor de providenciar um melhor na próxima vez. Sem poluição, sem violência, sem terremoto, sem tsunami, sem novela das 8, sem doenças, sem desgraceira e não tô nem aí se esse negócio for um tédio. Os incomodados que se mudem; o universo é grande e tem espaço pra todo mundo. Pode trazer junto um kit de bom-humor?Miss Daisy

9 – Quero presente de madame: um carro com ar condicionado e motorista que dirija bem, não seja estressado e conheça todos os caminhos para fugir dos congestionamentos, das passeatas na Paulista e das enchentes e, se isso acontecer tudo ao mesmo tempo, que ele tenha um comportamento elegante e não fique resmungando, mas que tenha uma conversa inteligente que me impeça de resmungar e parecer deselegante.

10 – QuerSharono muitos presentes de mulherzinha: unhas que não quebrem; cabelos que cresçam fortes, saudáveis e não fiquem caindo feito besta ; uma pele eternamente sedosa e lisa que nunca jamais tenha jeito de maracujá esquecido na gaveta (e que dispense o uso de cremes caríssimos ou, caso eu precise usa-los de vez em quando, não me deixem com a cara da Cristiane Torloni na propaganda da Olay); peitos que não despenquem com a maldita gravidade; mãos que passem longe do aspecto das mãos da Madonna que eu adoro, mas que tá envelhecendo mal e sem noção; cérebro jovem, “ativo, operante e na escuta”, pra usar um jargão que acho ótimo; olhos que funcionem e não me obriguem a usar óculos, que são um acessório charmoso só quando você não precisa deles; dentes brancos, fortes e brilhantes e que não sejam provenientes de uma prótese bem feita;resumindo aparencia e Q.I.  da Sharon Stone, que o senhor bem sabe é de 154!

Então veja bem querido velhinho de roupas ridículas e fora de moda, além de inadequadas para nosso clima, meus pedidos continuam modestos e de acordo com as necessidades mais básicas de uma mulher comum. Não há desculpas para não me atender.

Beijos e amor da Lagartixa.

Está mais que provado que, no espaço que separa o público e o privado, algumas pessoas pensam que se situa uma latrina e que esse espaço é o seu ouvido. É um tal de gente que fala em público como se estivesse sozinha no subsolo de uma mina com 3.000 metros de profundidade que eu não aguento mais.

Exemplo? Precisei ir almoçar em um restaurante. Escolhi um bem tranquilo, com comida de boa qualidade e quase vazio. Ênfase no “quase”! Na cena, eu, várias mesas vazias e, do outro lado da sala uma mesa com 2 senhores e uma sujeita que falava alto e mais do que a boca.

Não bastasse a verborragia, a conversa, ou melhor, o monólogo, reverberava naquele vazio de uma maneira muito especial. Os assuntos, variações de um mesmo tema, enchiam o espaço com aquela voz arrogante, cheia de si, delirantemente propagandeando seus serviços de assessoria de imprensa ou coisa que o valha, alardeando que era a melhor assessoria para Petshop . Como os dois homens que a companhavam não tinham cara de Cesar Millan nem conseguiam interromper aquela torrente de chatices, precisei pedir para o garçom colocar a comida em embalagem para viagem e sair antes que minha força de vontade sucumbisse ao desejo de gritar CALA A BOCA PÔ!!, coisa que uma dama jamais deve fazer em público.

Nunca entendi porque a moça no ônibus, com celular grudado na orelha, conta detalhes da cirurgia de sua mãe, de seu relacionamento, da briga no trabalho, tudo em alto e bom som  de modo que todos os passageiros escutem.

Se estou em um espaço público, não me sinto obrigada a escutar que fulana é uma vaca que dá pra todo mundo e que fica dando em cima do namorado da sicrana que saiu com o professor da academia porque a namorada dele é uma bruxa que não se enxerga e não vê que é uma baranga e ele é um gato pena que seja gay porque você sabe que todo carinha assim bombado é viado e fica fazendo musculação só prá se exibir igual aquela idiota do 18º andar lá do prédio que só falta dar pros porteiros e quem sabe se não dá porque tem cara de garota de programa e depois fica fazendo cara de santa e…blá, blá,blá.

Para onde será que foram a discrição, o assunto particular, o bom senso, a educação? Devem ter morrido e estão enterrados junto com o Privado .

Quem não conhece as fazendas,  cidades, restaurantes, bichinhos de estimação, aquários, ilhas do tesouro, poker, máfia ou vampiros oferecidos no Facebook? Iniciei essa história abrindo um restaurante e, apesar de não curtir muito cozinhar, achei que seria divertido preparar comidinhas de mentira e atender clientes em 2D. Onde será que eu estava com a cabeça? Em pouco tempo já odiava cada uma daquelas pessoinhas que entravam no restaurante – e quando não entravam odiava também; detestava cozinhar e esperar horas para que os pratos ficassem prontos, ou ter que juntar dinheiro para equipar meu modesto estabelecimento. Demorei para desistir do negócio porque cada cadeirinha tinha custado esforço, mas juntei coragem e fechei as portas.

Desistindo de ser o Alex Atala decidi que iria curtir a vida no campo e descansar em paisagens bucólicas. Criei uma fazenda e fiquei maravilhada com os animaizinhos, plantas, árvores frutíferas, galpões e casas. Tudo era lindo até que comecei a perceber que se quisesse a fazenda bonita e próspera tinha que estar lá diariamente! Precisava juntar vizinhos, convidar pessoas que nem conhecia, visitar as fazendas vizinhas,  mandar presentes, pedir presentes… um horror. Mesmo assim fui levando; aumentei o tamanho de minhas terras, criei animais diversos, cobri tudo de neve em pleno janeiro tropical, participei de missões, fiz novos amigos e vizinhos e me preparei para ser a Rainha do Country!  E então a ficha começou a cair.

Até onde aquela fazenda me levaria? Quanto tempo teria que dedicar para que minhas plantações vingassem? Com dor no coração desisti da fazenda e resolvi ser uma pioneira do velho oeste.

Não foi uma decisão sábia. Do mesmo jeito que nos empreendimentos anteriores, criar uma pequena cidade com escola, armazém, silos, agência de correio, saloon, hotel, fundição, posto de trocas, carroças, plantações, casa de séde, curral, galinheiros…tudo demanda tempo, pedidos infindáveis aos vizinhos e amigos, ou, em caso de loucura extrema, gasto de dinheiro real para comprar as ferraduras que são o dinheiro do jogo. Arranjei marido, tive dois filhos, arrumei um cachorro.  Depois de tanto empenho agora apareceu uma espécie de “extensão” da cidade: uma trilha que deve ser percorrida para se alcançar um forte. “Não vá para a trilha Caroline!” você com certeza aconselharia, mas para ter alguns itens na cidade é preciso fazer a tal trilha e lá fui.

Para conseguir muitas das construções, animais e plantas ainda preciso cumprir missões demoradas  e encher a paciência de meus vizinhos pedindo favores. Preciso também rezar para que a joça do jogo que é em flash não trave, para que a desenvolvedora corrija os erros frequentes e para que meus vizinhos não desistam de mim só porque sou pidona.  Um ponto à favor ou contra, conforme a interpretação, é que é tudo em inglês o que me permite saber que iron pans é frigideira, rivets é parafuso, springs é mola e badger é texugo.

Sinto-me forte por não ter sucumbido ao desejo de criar peixes em aquário, jogar poker, formar uma quadrilha de mafiosos, procurar tesouros, vestir bichinhos de estimação ou sair por aí mordendo pescoços. Por enquanto sou apenas uma Fazendeira alucinada desbravando o oeste.

Heeelllppp, help, pleeeaaasssseeee!!!

Qualquer um com meio cérebro de minhoca sabe que embalagem deve proteger o produto e instruções devem proteger o consumidor. Mas quem nos protege das armadilhas escondidas pelas caixas e pelos Manuais de Instruções?

Fui comprar um creme para os olhos na fútil esperança de mandar os pés de galinhas sapatearem em outra freguesia, mas quem diz que consegui ler as informações da caixinha herméticamente fechada? As letras minúsculas, em branco, foram impressas em papel brilhante azul claro e depois a embalagem foi envolvida em celofane transparente o que deixava tudo super clean, lindo e ilegível. Tive que confiar na vendedora e rezar para meus olhos não cairem.

Comprei um mini ferro para viagem lindinho; parece de brinquedo mas é super potente e tem até vapor, vejam só! Animadíssima li as instruções: “coloque água no reservatório do ferro…”  e aí empaquei.  Sendo o recipiente para colocar água “destacável”, tenho que tirar para abastecer? mas como que tira aquilo meu Deus, será que tenho que puxar mesmo? Arrisquei, puxei, empurrei, rezei e finalmente saiu; e onde devo colocar a água? será ali no mesmo buraquinho por onde está saindo o seletor de temperatura? não pode ser…

Olhei novamente as figuras do manual, olhei o ferro e minha metade de cérebro minhoquístico finalmente viu a luz!  No cabo branco gelo tem uma espécie de tampinha de borracha cinza clarinho e nessa tampinha tem gravado o desenho de um copo derrubando líquido, tudo em cinza, óbvio. Devo ser burra por não ter visto imediatamente que aquele desenho quase invisível era o manual de instrução principal. Mas continuei sem entender porque o recipiente para água é  “destacável”.

Caixa de sabão em pó é outro desafio intransponível para mim.  Na lateral da caixa de uma marca famosa tem uma espécie de lingueta que deve ser puxada e supostamente servirá para manter a caixa fechada após cada uso. Já nem tento mais; arrumei uma lata e coloco todo o sabão lá porque, no dia em que conseguir descolar aquela tira de papelão sem rasgar tudo, serei eleita a Rainha do  Lar, título que não me interessa de jeito nenhum.

Ainda no âmbito doméstico, sabem aquela tripinha de plástico que vem na lata de azeite e que devemos puxar para fazer um bico para servir? Pois é…nunca consegui. Puxo com cuidado e o treco não sai; desisto, fecho a tampinha de plástico, faço dois furinhos em ângulos opostos da tampa da lata e vivo feliz. E ninguém pode dizer que não tentei.

Não vou nem falar dos meus problemas com embalagens feitas de fôlha de plástico duro em cima e papelão em baixo que acomodam pilhas e lâmpadas econômicas, por exemplo, ou umas de plástico contra plástico seladas nas bordas para as quais precisamos usar tesouras, chaves de fenda, dentes…

Não posso ser considerada uma pessoa desastrada e sem habilidades, mas se acreditasse em teoria da conspiração pensaria que os deuses da embalagens e das instruções simplesmente me odeiam.

P.S.: aqui um post  com dicas sobre problemas com embalagens.

Pelo nome da bagaça o veículo  deve ser útil para prática de esportes, certo? Besteira minha. Os carrões altos, pilotados por sedentários e esportistas, só servem para atravancar o trânsito caótico de São Paulo.

Cada vez que um precisa estacionar na rua é um espetáculo! Manobra, vai pra frente, pra trás, pro ladinho, entorta a traseira, endireita a traseira, tenta, não deu, tenta de novo…. e o resto da humanidade que fique esperando. O importante para os donos desses carros é fazer cara de paisagem e fingir que as buzinadas e o ódio ao redor não é com eles; afinal os outros devem ser pacientes e tolerantes como manda a boa educação, não é madame, não é doutor?

Em vagas demarcadas dentro de shoppings centers e garagens a coisa é um pouquinho diferente: o principal é ocupar duas vagas. Nada de se ajeitar em uma porque a caminhonete de luxo pode ser riscada pelo carro que vai estacionar ao lado ou, por causa do tamanho do transatlântico, pode haver dificuldades de manobra na hora de sair.

Não sei distinguir marcas ou modelos de carros, mas entendo que  4X4 significa tração nas quatro rodas e altura de carroceria sirva para vencer obstáculos no chão. Dada essas características básicas, por que alguém pode querer isso para circular na cidade onde as ruas são asfaltadas, não temos morros, pastos, barro para atolar ou trilhas para vencer – no máximo uma lombada ou um buraco no asfalto. Duvido que o feliz proprietário de um desses o leve para passear na lama…

No passado recente  os utilitários que víamos por aí eram umas caminhonetes com caçamba do tipo “carrega tijolo”. Era um tal de gente fazendo cara de “rico do interior” dirigindo pra lá e pra cá com seus caminhõezinhos que podiam transportar carga na traseira e duas pessoas na cabine, claro que sem carga e apenas com o motorista. Olhando os novos utilitários parece que pegaram os antigos, colocaram mais um banco, mais janelas e finalizaram com uma reluzente cobertura em chapa de metal, voltando a caçamba a ser um mero porta malas.

Não imagino o que motiva a pessoa para adquirir esse tipo de veículo; não acho que economia esteja entre as razões porque manutenção e consumo de combustível devem ser bem significativos . Pode ser que dirigir um carro com cara de blindado, vidros escuros e mais alto que os outros dê sensação de poder, status, segurança. Pode ser que dentro dele o motorista se sinta mais à vontade para cometer barbeiragens, confiante em que o tamanho imponha respeito e medo aos outros motoristas.

As razões para amarem esse jipão metido à besta eu não sei, mas sei bem as minhas para odiá-los:

1 – se estão estacionados no meio fio, principalmente próximos às esquinas, preciso bancar a suricata quando quero atravessar a rua porque a altura deles me impede de ver o fluxo de veículos;

2 – observo que muitos motoristas “esportivos”  dirigem de forma agressiva e arrogante, não respeitando pedestres, sinais, faixas, limite de velocidade, etc;

3 – estacionar ao lado deles é uma temeridade porque impedem sua visão na hora de sair da vaga;

4 – apesar de ocuparem um espaço fantástico raramente vejo mais de uma pessoa dentro desses carros;

5 – a classificação de esportivo pode estar motivando uns doidões a trafegar em altíssima velocidade dia ou noite e os acidentes que provocam são sempre graves;

Tentei encontrar pontos à favor para não parecer reclamona mas não consegui nem mesmo buscando em revistas especializadas. Que os aficcionados e fabricantes me desculpem mas esses utilitários são completamente inúteis.

Já vi muita gente reclamando da série de TV  “True Blood” e tenho que dar razão à todas elas. Na  4ª temporada que terminou neste domingo, mais uma vez os roteiristas reescreveram a história e, dos livros de Charlaine Harris, pouco restou além dos nomes. Personagens que para a escritora não mereceram mais que 5 linhas de texto apareceram em destaque nas 4 temporadas da  série; outros foram criados para a TV e alguns dos mais bacanas foram ignorados até agora. Minha lista de reclamação é grande e contém alguns spoilers:

1 -Para mim Tara é a figura mais dispensável da saga, mas  os roteiristas resolveram fazer “inclusão das minorias” e inventaram que a amiga de Sookie é negra, é lésbica, foge da cidade, volta, se envolve com bruxas, tem um caso com um vampiro super vilão antes de preferir as meninas, e dá á atriz  Rutina Wesley a oportunidade de arregalar os olhos em cada cena.

2 – De onde tiraram o personagem de Alejandro Kevin, o Jesus? Não lembro de tê-lo visto nos livros o que significa que se existia era insignificante; não lembro de ler absolutamente nada sobre um personagem “bruxo” que se transforma em um demônio com cara de lutador de tele-catch mexicano. No início, quando apareceu na série de TV até que foi interessante, mas esticar o personagem só serviu para uns efeitos especiais bem meia-boca e para criar clima com o próximo personagem, o indefectível Lafayete.

3 – Lafayette morre logo na história original; é apenas mais um cozinheiro dos muitos que passam pelo bar do Sam. O personagem gay, com trejeitos e maquiagem exagerada está presente na saga e a participação dele na série foi ampliada pelos roteiristas, o que na minha opinião valeu a pena… mas só até a 3ª temporada. Na 4ª ficou faltando conteúdo e nem mesmo o ótimo ator Nelsan Ellis conseguiu salvar o personagem, restando apenas um infindável  “bater de pestanas” para reforçar a gayzice de Lafayette, sem falar no penteado medonho que fizeram o rapaz usar e nas incorporações tremeliquentas do “médium”.

4- Uma figura que amamos odiar é Debbie Pelt. No original, Sookie acaba logo com ela matando-a com um tiro de espingarda e quando lemos isso no livro achamos que foi muito merecido. Na série a atriz Brit Morgan dá vida à Debbie primeiro como uma drogadona magricela, depois como uma perua magricela e finalmente como uma adúltera magricela (e pela cara dela acho que sempre drogadona). No livro ela é uma transmorfa e não uma fêmea de lobisomem, mas talvez os roteiristas não estivessem afim de fazer um cruzamento interracial, então mudaram o bicho e só agora, no último episódio, deixaram Sookie dar o tão merecido tiro.

5 – Que bruxa é essa tal de Marnie ( vivida pela atriz Fiona Shaw)? De onde saiu? Eric é enfeitiçado e perde a memória na história de Charlaine Harris, mas originalmente o que as bruxas estão disputando é um lugar ao sol (desculpem o trocadilho) nos negócios da Lousiana. Não tem essa de bruxa (que sofreu bullying na infância por causa de sua aparência e é uma revoltada)  matar todos os vampiros, não tem essa de bruxa lindona e bom coraçãochamada Antonia (a ex-miss Colômbia, Paola Turbay) e que foi queimada na inquisição espanhola, não tem levitação, não tem possessão, etc . Fazer uma temporada inteira com essas coisas “extras” não foi nada interessante e me fez quase desistir da série.

6 – O que fizeram com Pam, a vampira criada por Eric, foi imperdoável. Pam talvez fosse a personagem que menos precisasse de intervenção para se adaptar à série de TV: linda, com senso de humor mais que afiado, sarcástica, violenta e fiel à seu criador até a última gota de sangue  não precisava de retoque, como pudemos ver até a 2ª temporada. Da 3ª temporada em diante foram esvaziando a personagem e a transformaram numa “fashion victm” que mal pode andar dentro das saias justíssimas e dos saltos agulhas que bem podem ser usados para empalar algum vampiro inconveniente. A atriz Kristim Bauer, que me lembra um pouco Caterine Deneuve, deve sofrer com esse figurino.

7 – Um acréscimo que valeu a pena foi a personagem Jéssica Hamby. A vampira adolescente é ótima e traz um pouco de diversão à série com suas reclamações intermináveis, seus amores “para toda a vida”, seus enganos e seu constrangimento quando as presas teimam em aparecer nos momentos mais inoportunos. Sua gratidão à Bill que com a transformação a tirou de uma vida insípida e previsível e os inesperados ataques de rebeldia a fazem mais “humana”. Sem falar que a atriz Debora Ann Woll é linda…

Nos ganhos pode-se também contabilizar o fanático casal de dirigentes da “Irmandade do Sol”,  Sara e Steve Newlin, representados por Ana Camp e Michael McMillian, super convincentes na caracterização dos personagens. O Reverendo pelo menos vai voltar como vimos nas cenas do último capítulo. O rei Russel Edgington, aparentemente se livrou das camadas de cimento e correntes com as quais foi enterrado por Eric e Bill e também deverá reaparecer com sua overdose de maldade e desejo de vingança.

Nas perdas certamente estará a fada Claudine (idiotizada e pouco aproveitada na série)  e a ausência de seu irmão Claude, que no livro é um fada, stripper e dono de um clube para mulheres, no estilo go-go-boy cuja ambição é ser capa de revista.

Muita bizarrice e constrangimento poderiam ter sido evitados  nessas “adaptações” que Alan Ball fez das “Crônicas de Sookie Stakhouse”  e que transformaram a personagem título na taradinha mais gostosa e mais bipolar de Bon Temps.

Mas o show deve continuar e a 5ª temporada já está em produção; por isso para continuar assistindo a série, o melhor é fingir que nunca leu os livros…

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