janeiro 2010


E a chuva não para de chover como disse o menininho na fila do mercado.

Ouvi no rádio que apenas em 1940 choveu mais que agora. Ouvi também uma propaganda política onde o candidato prometia resolver o problema das enchentes em São Paulo. Como sou um pouco tonta e ando irritada com a cara de pau desses sujeitos, fiz cara feia e respondi para o rádio: “Prometer é fácil, quero ver é fazer!!”. E já que estamos falando em chuvas, eles que tirem o cavalinho da mesma, caso estejam esperando meu voto.

Há anos que passo pelas marginais do Tietê e vejo a draga tirando areia do rio e amontoando nas margens. Sempre fico pensando pra onde vai aquela areia toda…Alguém me disse que volta para dentro do rio porque após ser retirada a areia permanece ali mesmo, nas margens, e que é por isso que as obras de dragagem são eternas e tão lucrativas. Não sei se é verdade ou não, mas que faz sentido, isso faz. O Rio Tietê continua não dando vazão às águas e qualquer chuvinha vira um inferno para quem precisa passar por suas marginais.

A Prefeitura veicula um “institucional”, também no rádio e afirma que nossa cidade foi construída entre rios “com pouca inclinação”; cita várias obras que dizem ter feito para resolver o problema das enchentes, apresenta aqueles números que sempre impressionam e  aproveita para falar que a população tem culpa porque joga sofá no lixo. Aliás, joga fora do lixo, como se todo mundo tivesse sofás sobrando pra tacar fora. Será que os sofás que estão por aí não vieram flutuando na enxurrada, junto com as camas, geladeiras, roupas, etc?

Falando sério, acredito que a população tem um pouco de culpa mesmo, porque saquinho de supermercado cheio de lixo largado pelas calçadas deve contribuir para o entupimento das galerias pluviais e papel atirado no chão também. Mas a limpeza dessas galerias, dos piscinões  ou a varrição das calçadas é feita com a frequência e cuidado necessário?  Sobre as calçadas é curioso observar que o que é varrido (quando o serviço é feito) é o meio-fio. Calçada, segundo a Prefeitura, é por nossa conta e isso deve ser porque o IPTU que pagamos é pouco, não é mesmo?

Conversando com um amigo, soube que na  Casa Cor que aconteceu em São Paulo alguns anos atrás, foi apresentado um piso permeável, feito à base de pó de cimento e resíduos vegetais. A água recolhida debaixo desse piso pode ser reaproveitada para uma série de usos e no evento eles fizeram fontes jorrando a água coletada. Porque será que ninguém pensou nisso quando refizeram as calçadas da Avenida Paulista? Pode até ser que esse tipo de piso custe um pouco mais, eu não tenho essa informação mas, a longo prazo certamente esse custo seria absorvido pelos benefícios que acarretaria (coletar a água para lavar as calçadas ou molhar os jardins, por exemplo).

Quando se constroem os imensos shopping centers e condomínios verticais, alguém se preocupa com a permeabilização do solo ou só interessa construir aqueles edifícios imensos e de gosto duvidoso? Contorna-se o problema do impacto ambiental apresentando os prédios para aprovação um por um o que gera uma metragem quadrada menor, segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo. O jeitinho e a esperteza de alguns brasileiros continuam firmes e fortes.

É tanta coisa errada e tanta coisa para reclamar que talvez só dando um passeio pela chuva para esfriar a cabeça e não cansar o eventual leitor com um post sem fim. Fui.

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Não sei se são os hormônios, o efeito estufa ou alguma conjunção astral desfavorável, mas o fato é que não estou com paciência para a falta de educação que se esparrama, feito batatinha quando nasce, pelo chão virtual e real.

Fiquei abestalhada ao ler um post onde a vizinha de apartamento, que reclama de barulho, foi chamada de “velha escrota e mal amada”, que devia “comprar um vibrador e ser feliz”; a blogueira  também questiona  o que a tal senhora  “está fazendo acordada a esta hora”.  Tentar fazer menos barulho, nem pensar. O que vale é insultar e usar para isso todo o arsenal de preconceito disponível.

Na  padaria, comprei várias coisas e fui pagar com o cartão de débito que, suprema modernidade, tem chip. Não passou o débito e a caixa pergunta: “esse cartão é da senhora mesmo?”. Parecia estar pensado que roubei o cartão e fui lá comprar pão, leite e refrigerante.

Fui ao supermercado e na hora que estou passando as compras, um rapaz se aproxima e joga no balcão do caixa, no meio das minhas coisas, um pacote de mortadela e um pãozinho. Fico zangada e pergunto o que é aquilo e porque ele não espera a vez para passar sua compra. O grosseirão, que ao que parece é funcionário do mercado,  me olha ameaçador e diz: “fica na sua!”. Que me sirva de lição para ficar bem longe desse estabelecimento que de barato não tem nada, e apesar de ter futuro no nome, é um dos mais retrógados que conheço.

Na região da rua 25 de Março existem muitas lojas que vendem bijouterias mais em conta. Semana passada vi uns colares legais e, com cuidado para não danificar a etiqueta, coloquei um no pescoço para ver como ficava. Do fundo da loja a funcionária do caixa gritou: não pode experimentar! Não bastasse os 3 seguranças com cara de poucos amigos que vigiavam as clientes com olhos de águia… Não há preço baixo que justifique.

Voltando à blogosfera, as vezes o twitter parece a latrina de um bar de quinta categoria. Jogam-se ali palavrões, comentários escatológicos e frases preconceituosas como se o mundo fosse acabar e fosse necessário gastar todo o arsenal de grosserias que cada um tem.

Longe de mim querer ditar regras. Posso parar de frequentar os estabelecimentos onde não sou bem atendida, ignorar o blogueiro/blogueira mal educados e bloquear pessoas no Twitter, mas isso resolve o problema? Em outros tempos se diria que não há sabão que chegue para lavar tantas bocas…

Estou vivendo uma experiência interessante, gentil oferecimento das velhas portas aqui do apartamento.

Depois de várias tentativas para que a tinta aderisse, a única solução foi tirar as dita-cujas e levá-las para a casa do pintor. Lá, com espaço de sobra, ele irá aplicar um produto que vai arrancar as 200 camadas de tinta, lixar e finalmente pintar novamente.

Descontando o susto que levei ao ver o Madson, pintor e grafiteiro, empunhando uma imensa talhadeira e marreta de ferro para singelamente arrancar as portas das  dobradiças, tudo correu bem, mesmo porque consegui fazer com que ele usasse ferramentas mais delicadas, tipo meu martelinho e uma chave de fendas.

A falta das portas criou alguns problemas: gatos e cachorros estão circulando livremente por todos os ambientes o que significa mais especificamente que eles resolveram dormir sobre minha cabeça; privacidade passou a ser algo inexistente e o barulho da makita cortando azulejos ficou gravado para sempre em meus tímpanos.

Para relaxar durante a inevitável insônia depois de um dia agitado e coberto de poeira fiquei imaginando que vivia em um loft com todos aqueles  espaços abertos; é chic e está na moda.

Pensei se seria agradável ver a cozinha ou a sala o tempo todo. Para poder dormir imagino que as pessoas usem aquele troço feio que cobre os olhos e protege da claridade. Do jeito que me mexo durante o sono  ia acordar com acessório no dedão do pé.

Mas a vantagem é que poderia ter um janelão imenso, da altura da parede, com uma bonita paisagem, igual ao que se vê nos filmes.

Tudo teria que estar em seu lugar; nada de deixar os livros para arrrumar depois nem largar louça na pia;  o truque de chutar tudo para baixo da cama ou de fechar a porta da cozinha quando a campainha toca não funcionaria mais. A visita iria ver aquelas roupas pelo chão e a linda pilha de louça suja. A vantagem é que teria menos tralha enfurnada.

Concluí que gosto de ter uma casa tradicional, com portas, janelas e paredes e, assim que o infeliz desligou a britadeira lá na avenida — sim, porque alguma prestadora de serviços achou que sábado de madrugada é um ótimo momento para fazer consertos na rua —, virei para o canto e dormi.

Por volta de uma da madrugada toca o telefone.

Atendo preocupada porque nesse horário as pessoas só ligam para duas coisas: convidar para a balada ou contar notícia ruim; ninguém vai me ligar tão tarde para um papinho amigável. Já que não sou baladeira, resta notícia ruim…

– Alô

Uma voz de bêbado: Jú?!!!!

– Não senhor. O senhor se enganou…

Hummm…Click.

Toca de novo. E o bêbado mais bêbado ainda:

– Júúúnhnun?!!

– Não. O senhor está ligando número erra..

Click.

Dez horas da manhã. Estou lavando roupa (no tanque porque a lavadora quebrou), os pedreiros estão pondo minha cozinha abaixo e o gato resolveu miar feito um doido porque quer que alguém abra a torneira para ele beber agüinha fresca e corrente.

– Alô!

– Alô, eu gostaria de falar com a dona da casa.

– Quem está falando por favor?

– A senhora é a dona da casa?

– Olha meu senhor, estou muito ocupada então me diga, por favor, quem é  e o que quer.

– Ahhh. Perdi a vontade de falar com a senhora…Click

Acho que em alguma outra encarnação devo ter furado muito olho de passarinho.

Só isso pode explicar gente tão idiota ligando aqui em casa. Ou será que é falta de educação mesmo?

Não sou muito boa nessa coisa de resoluções de fim de ano, nem em planejamentos a longo prazo. Não lembro de nenhum dia 31 de dezembro em que tenha sentado confortávelmente no sofá e pensado “nesse ano vou juntar dinheiro e viajar”, mesmo porque odeio viajar (mas isso é assunto para outro post), ou “comprarei uma geladeira”, ou” vou  iniciar uma dieta da água filtrada e abobrinhas cozidas”, ou” mudarei de emprego”, etc.

Toda vez que planejo um pouquinho mais longe a vaca vai pro brejo. Parece uma invariável cósmica, aquele lance do “universo conspira”… Por isso nunca faço promessas de final de ano.

Há decisões tomadas no calor do momento, tipo “vou matar esse vizinho pagodeiro que liga o som alto das 9 da manhã às 3 da madrugada” ou “vou cortar o pinto desses cachorros mijões”, mas essas obviamente são esquecidas no mesmo instante e só ressucitam mediante a repetição dos fatos geradores. Tem as que já sei de antemão que provavelmente vou descumprir, como a de não jogar mais nada on-line ( comecei FarmVille e CaféWorld no Natal). E tem as que sei que nem adianta, como no caso das “dietas” e “academia”.

Essa história de “comemorar a passagem de ano” não existe pra mim. Pode parecer anti-social, mas nem ligo pra festas de reveillon, não gosto de champanhe, música alta, abraços falsos, multidões e fogos de artifício. Sou uma Ogra consciente e feliz.

Neste dia 31 de dezembro de 2009  peguei a vassoura e varri minha casa criteriosamente. Num ritual inventado na hora, à cada vassourada ia dizendo em voz alta: pra  fora o cansaço, pra fora as doenças, pra fora as guerras, pra fora a falta de dinheiro, pra fora as tristezas,  pra fora a impaciência, pra fora os falsos amigos, e tudo o mais que consegui lembrar. Imaginei que junto comigo estavam a minha família e os meus amigos e que todos nós varríamos o lixo de nossas vidas. Foi ótimo!!