odiaemqueaterraparouAcordei, olhei o relógio e quando vi no mostrador a marca de 10:00 horas pensei “morri”.

Morri e comigo morreram todos os cachorros do prédio, os vizinhos, a empregada do apartamento de cima, as crianças do apartamento do lado, ou quem sabe o mundo acabou e não me avisaram? Comecei a me divertir com os pensamentos toscos e demorei mais 10 minutos na cama enumerando mentalmente todas as razões para aquele silêncio misterioso, incluindo novas imagens para o filme O dia em que a Terra parou.

Aqui no prédio as coisas começam bem cedo: a empregada do vizinho de cima chega pontualmente as 8:00 horas sendo sua primeira tarefa passar o maldito aspirador que produz um barulho imenso, vibrando e roncando em cada centímetro de soalho aspirado; para minha felicidade ela invariavelmente começa a limpeza pelo quarto. Os cães do outro vizinho gostam muito de sair de manhãzinha chova ou faça sol e, é claro, saúdam cada ruído real ou imaginário com latidos altos e descontrolados na frente do elevador; as  crianças vizinhas precisam sair as 7:30 para ir à escola sendo que bater portas e gritar é sinal de alegria e vitalidade matinal não é mesmo?!

Alguém pode estranhar a reclamação por ter que acordar por volta de 8 da manhã sendo que tanta gente levanta as 5 ou 6 para ir trabalhar. Acontece que por um capricho da natureza, começo a funcionar à partir das 10 da manhã e fico “acesa” até mais ou menos 2 da madrugada. É  no período que vai de 16 horas até aproximadamente 1 hora da manhã que sou mais produtiva e aí aproveito para trabalhar, ler, escrever, estudar, assistir filme, cozinhar, preparar projetos de trabalho, ir às compras, etc…

Sempre foi assim e, quando precisava levantar cedo para ir trabalhar fora de casa, era um zumbi no ônibus e na escrivaninha até que meu ser despertasse para a vida; então o mal humor passava por encanto e eu era toda simpatia e produtividade pelo resto do dia.

Nas primeiras horas  do expediente tinha que me esforçar muito para superar o fato de que estava lá só de corpo presente e que meu espírito ainda vagava pelo mundo dos sonhos; tive a sorte de conseguir também alguns empregos de meio período – á tarde, é claro.

Trabalhar em casa é uma oportunidade de fazer o próprio horário, mas infelizmente tenho que participar ativamente do madrugar dos meus vizinhos, conseguindo dormir apenas 4 ou 5 horas por noite devido aos caprichos do meu relógio biológico.

Foi por isso que o silêncio dessa manhã gloriosa me deixou tão feliz. E foi por isso que contracenei tão dedicadamente com Klaatu; foi por isso que mais uma vez pensei em me mudar para o meio do mato com meus livros, meu PC e nada mais, além de uma antena parabólica, off course, que ninguém é de ferro.