canoaCanoa furada não é aquela embarcação que te deixou na mão no meio da correnteza. Canoa furada é um tipo de coisa que você poderia facilmente evitar, mas na qual que sabe-se lá porque, embarca de cabeça.

Você resolve, por exemplo, acompanhar aquela  sua conhecida ao médico porque  coitadinha  ela não tem ninguém que vá junto. Daí você sai de casa debaixo do maior aguaceiro do ano e vai toda solícita fazer sua boa ação. É recebida de cara feia porque atrasou cinco minutos, mas como tem uma reserva de paciência extra, deixa pra lá com um sorriso cheio de boa vontade.

No trajeto sua companheira de viagem, que acha que conhece todos os caminhos da cidade, erra ao dar as indicações para o motorista do taxi,  e dali em diante é uma sucessão interminável de resmungos em voz chorosa do tipo: “meu Deus do céu”, “onde vamos parar”, “o senhor entrou errado”, “vamos chegar atrasadas”, “eu falei ali”,  “olha só que volta”, “estamos fazendo um passeio turístico”, etc, etc. . .

É nesse momento que você descobre que aquilo é uma canoa furada. Não adianta argumentar que estão bem adiantadas para o horário da consulta ou que o desvio foi pequeno; temeridade dizer à simpática senhorinha que foi ela que falou que era pra entrar ali. A sorte é que o motorista é um sujeito super gentil que não obriga as duas a descerem no meio da rua; você baixa a cabeça e  silenciosamente dá graças a Deus por ainda existir pessoas legais dirigindo taxis em São Paulo. Não há mais nada a fazer…

Pode também acontecer daquela amiga, que você não vê há anos, ligar e te chamar para um evento grátis. Ela não dá muitas explicações, só diz que é uma palestra, seguida de brunch, sobre vida saudável e rejuvenescimento. Você ingenuamente pensa que oba, vou ficar mais jovem, não tenho que me preocupar em fazer almoço e além de tudo o convite contém a palavrinha mágica: “grátis”! Não importa que seja num lugar do qual você nunca ouviu falar, que comece as 9 horas do domingo e que seja longe de sua casa. É de graça e ela é a sua amiga que gentilmente lembrou de você depois de tanto tempo. Como recusar uma oportunidade dessas?

Então você pega o metrô e depois um ônibus; desce do ônibus e anda mais 5 quadras a pé pensando em como é que àquela hora da manhã pode fazer tanto calor meu Deus e que deveria ter posto um chinelo de dedo que assim seu pé não doeria tanto. Finalmente chega ao local do “evento” e dá de cara, bem ali no saguão, com várias mesas expondo caríssimos produtos naturais que foram cientificamente testados e prometem fazer seu intestino funcionar, limpar seu organismo e proporcionar uma vida longa e saudável.  Ao lado dos alimentos miraculosos uma pilha de livros que foram escritos por um médico japonês ou chinês e que fizeram enorme sucesso contando sobre esse método maravilhoso de rejuvenescimento. Você nunca ouviu falar de nada disso, mas o mundo é cheio de novidades, não é?!

Com calor, suada e com os pés doendo horrivelmente você respira fundo – o que é um erro já que o recinto cheira a mofo – e procura um lugar para sentar.  Acontece de ser bem ao lado de alguns dos maiores entusiastas da técnica do “faça muito cocô e seja feliz”; para sua total alegria, eles vão aplaudir calorosamente tudo o que os promotores de venda estão dizendo lá no palco;  vão fazer comentários entusiasmados incentivando para que você compre tudo; provavelmente deduziram que sua aparência cansada se deve ao simples fato de que você não vai ao banheiro fazer o “número 1” com a frequência devida. Apesar do ódio em seu coração você sorri para sua amiga e diz que é uma pena não ter dinheiro para investir naquelas maravilhas; se despede  e vai embora pensando, enquanto a água sobe dentro da canoa, em como pode embarcar em mais essa .

Encontro arranjado por amigos que acreditam, talvez com uma certa dose de razão  que você está encalhada, festinha infantil,  reunião no salão de festas do prédio, convite para conhecer um novo restaurante com culinária exótica sendo que você odeia pimenta e temperos fortes,  servir de modelo para amiga que está fazendo curso por correspondência de cabeleireira e manicure, flertar com um sujeito que te leva para assistir filme de arte iraniano com legendas em sanscrito …a lista é longa.

Às vezes me pegunto porque sempre embarco de cabeça nessas coisas. Só pode ser distração ou, como dizia minha sábia avó, miolo mole!!