Já vi muita gente reclamando da série de TV  “True Blood” e tenho que dar razão à todas elas. Na  4ª temporada que terminou neste domingo, mais uma vez os roteiristas reescreveram a história e, dos livros de Charlaine Harris, pouco restou além dos nomes. Personagens que para a escritora não mereceram mais que 5 linhas de texto apareceram em destaque nas 4 temporadas da  série; outros foram criados para a TV e alguns dos mais bacanas foram ignorados até agora. Minha lista de reclamação é grande e contém alguns spoilers:

1 -Para mim Tara é a figura mais dispensável da saga, mas  os roteiristas resolveram fazer “inclusão das minorias” e inventaram que a amiga de Sookie é negra, é lésbica, foge da cidade, volta, se envolve com bruxas, tem um caso com um vampiro super vilão antes de preferir as meninas, e dá á atriz  Rutina Wesley a oportunidade de arregalar os olhos em cada cena.

2 – De onde tiraram o personagem de Alejandro Kevin, o Jesus? Não lembro de tê-lo visto nos livros o que significa que se existia era insignificante; não lembro de ler absolutamente nada sobre um personagem “bruxo” que se transforma em um demônio com cara de lutador de tele-catch mexicano. No início, quando apareceu na série de TV até que foi interessante, mas esticar o personagem só serviu para uns efeitos especiais bem meia-boca e para criar clima com o próximo personagem, o indefectível Lafayete.

3 – Lafayette morre logo na história original; é apenas mais um cozinheiro dos muitos que passam pelo bar do Sam. O personagem gay, com trejeitos e maquiagem exagerada está presente na saga e a participação dele na série foi ampliada pelos roteiristas, o que na minha opinião valeu a pena… mas só até a 3ª temporada. Na 4ª ficou faltando conteúdo e nem mesmo o ótimo ator Nelsan Ellis conseguiu salvar o personagem, restando apenas um infindável  “bater de pestanas” para reforçar a gayzice de Lafayette, sem falar no penteado medonho que fizeram o rapaz usar e nas incorporações tremeliquentas do “médium”.

4- Uma figura que amamos odiar é Debbie Pelt. No original, Sookie acaba logo com ela matando-a com um tiro de espingarda e quando lemos isso no livro achamos que foi muito merecido. Na série a atriz Brit Morgan dá vida à Debbie primeiro como uma drogadona magricela, depois como uma perua magricela e finalmente como uma adúltera magricela (e pela cara dela acho que sempre drogadona). No livro ela é uma transmorfa e não uma fêmea de lobisomem, mas talvez os roteiristas não estivessem afim de fazer um cruzamento interracial, então mudaram o bicho e só agora, no último episódio, deixaram Sookie dar o tão merecido tiro.

5 – Que bruxa é essa tal de Marnie ( vivida pela atriz Fiona Shaw)? De onde saiu? Eric é enfeitiçado e perde a memória na história de Charlaine Harris, mas originalmente o que as bruxas estão disputando é um lugar ao sol (desculpem o trocadilho) nos negócios da Lousiana. Não tem essa de bruxa (que sofreu bullying na infância por causa de sua aparência e é uma revoltada)  matar todos os vampiros, não tem essa de bruxa lindona e bom coraçãochamada Antonia (a ex-miss Colômbia, Paola Turbay) e que foi queimada na inquisição espanhola, não tem levitação, não tem possessão, etc . Fazer uma temporada inteira com essas coisas “extras” não foi nada interessante e me fez quase desistir da série.

6 – O que fizeram com Pam, a vampira criada por Eric, foi imperdoável. Pam talvez fosse a personagem que menos precisasse de intervenção para se adaptar à série de TV: linda, com senso de humor mais que afiado, sarcástica, violenta e fiel à seu criador até a última gota de sangue  não precisava de retoque, como pudemos ver até a 2ª temporada. Da 3ª temporada em diante foram esvaziando a personagem e a transformaram numa “fashion victm” que mal pode andar dentro das saias justíssimas e dos saltos agulhas que bem podem ser usados para empalar algum vampiro inconveniente. A atriz Kristim Bauer, que me lembra um pouco Caterine Deneuve, deve sofrer com esse figurino.

7 – Um acréscimo que valeu a pena foi a personagem Jéssica Hamby. A vampira adolescente é ótima e traz um pouco de diversão à série com suas reclamações intermináveis, seus amores “para toda a vida”, seus enganos e seu constrangimento quando as presas teimam em aparecer nos momentos mais inoportunos. Sua gratidão à Bill que com a transformação a tirou de uma vida insípida e previsível e os inesperados ataques de rebeldia a fazem mais “humana”. Sem falar que a atriz Debora Ann Woll é linda…

Nos ganhos pode-se também contabilizar o fanático casal de dirigentes da “Irmandade do Sol”,  Sara e Steve Newlin, representados por Ana Camp e Michael McMillian, super convincentes na caracterização dos personagens. O Reverendo pelo menos vai voltar como vimos nas cenas do último capítulo. O rei Russel Edgington, aparentemente se livrou das camadas de cimento e correntes com as quais foi enterrado por Eric e Bill e também deverá reaparecer com sua overdose de maldade e desejo de vingança.

Nas perdas certamente estará a fada Claudine (idiotizada e pouco aproveitada na série)  e a ausência de seu irmão Claude, que no livro é um fada, stripper e dono de um clube para mulheres, no estilo go-go-boy cuja ambição é ser capa de revista.

Muita bizarrice e constrangimento poderiam ter sido evitados  nessas “adaptações” que Alan Ball fez das “Crônicas de Sookie Stakhouse”  e que transformaram a personagem título na taradinha mais gostosa e mais bipolar de Bon Temps.

Mas o show deve continuar e a 5ª temporada já está em produção; por isso para continuar assistindo a série, o melhor é fingir que nunca leu os livros…