Desfruto do privilégio de poder ir à pé para o trabalho e todos os dias posso ser vista subindo as ladeiras do bairro e botando os bofes pra fora enquanto amaldiçoo as calçadas quebradas e cheias de calombos contruídos para facilitar o acesso aos estacionamentos. Jogo de cintura para contornar as mesinhas que bares e padarias descaradamente colocam sobre o que resta de plano nas tais calçadas também faz parte da minha rotina.

Outro dia, durante essa minha andança fui contemplada, à revelia, com a visão de pedaços variados de glúteos, mais ou menos cobertos por calcinhas  em tons esquisitos. Vi calcinhas no indefectível azul calcinha, rosa amassada, bege amarronzado, verde semáforo,  e uma de cor indefinida por conta do encardido.

Não, não me tornei lavadeira e nem vendedora de roupas íntimas. A fartura de bundas expostas exibindo partes daquele vão que separa uma metade da outra exposição foi por conta dessa moda medonha das cinturas excessivamente baixas. As moçoilas compram calças dois números menores do que deveriam usar e saem pela rua mostrando pneus abundantes, barrigas imensas e o que chamarei pudicamente de  “cofrinho”,  numa deselegância sem fim.

Para completar o quadro dão dois passos e uma puxadinha, porque a calça vai descendo e à cada movimento mostrando mais carnes e celulites. Fui me perguntando qual a razão desse gesto de recato já que se não quisessem mostrar a bunda os glúteos, poderiam comprar calças um ou dois centímetros mais alto nas cinturas, mas concluí que elas acham isso bonito.

Continuei meu caminho e pouco mais à frente encontro um discípulo de Neymar. Sabe aquela pessoa que vai ziguezagueando pela calçada, driblando todas as tentativas que você faz para passar á frente? Fintei para a direita, para a esquerda e nada! Já estava quase dando um carrinho no moço quando surgiu a oportunidade e passei por ele. Não pude evitar olhar assim meio de banda para ver o que distraía tanto o rapaz.

Ele ia feito barata tonta pela calçada porque lia um livro enquanto caminhava. Um livro com as páginas amareladas, com jeitão de antigo. Dei à ele o meu melhor sorriso, pedi desculpa pela ultrapassagem e continuei andando com o sorriso pregado na cara. Esse moço-leitor salvou meu dia.