Meu sorrisinho já mostrava a praga que eu iria me tornar

Me criei entre meninos e  meus amigos eram os amigos do meu irmão mais novo; era com eles que eu brincava.

Num belo dia estávamos brincando de guerra em nosso imenso quintal. O Forte que protegia meus soldados era uma pilha de tijolos e a tribo de índios de meu irmão se esgueirava atrás das moitas de azaléias preparando o ataque. A batalha era presenciada à distância pelo cachorro, pelo gato e pelas galinhas.

Os soldados estavam em desvantagem. Porque eu era a única menina do bando e não podia escolher muito, do meu lado ficavam aqueles meninos novinhos que ninguém queria no time e do lado dos índios os meninos maiores e mais espertos.

Era certo que perderíamos o Forte e seríamos escalpelados tal qual se insinuava nos filmes das matinês. Na verdade a gente nem sabia direito o que significava “escalpelar”. Antigamente as cenas sangrentas eram deixadas por conta de nossa imaginação e na tela só se via aquele índio mal encarado erguendo a mão para exibir um treco que parecia um rabo de guaxinim. Isso significava que “escalpo” podia ser um corte de cabelos ruim.

Prevendo a derrota tive a brilhante idéia de usar os canhões do Forte e mandei meus soldados nanicos juntarem pedras e atirar nos selvagens protegidos pelas moitas. Nenhuma bala conseguia acertar o alvo até que eu, Comandante do Forte, peguei um  pedaço de tijolo e joguei para cima na direção dos inimigos.

O projétil fez uma curva e caiu direto no território índio. Quando já íamos comemorar, ouvi o berro! Meu irmão saía de sua trincheira com o rosto todo ensangüentado, os olhos verdes cheios de espanto e raiva por causa da tijolada na testa.

Abandonei o Forte e os soldados e corri para socorrer o pobre índio. Fomos às pressas para o tanque lavar o ferimento com sabão como minha mãe havia nos ensinado. Aproveitei o pano de pratos que estava no varal e fiz uma bandagem que o deixou com cara de árabe no deserto (tipo o das matinês é óbvio).

Acho que foi a partir daí que virei pacifista e jurei nunca mais usar uma arma, juramento cumprido até hoje e que se renova cada vez que olho a cicatriz que ainda enfeita a testa de meu irmão 50 anos depois.