Minha linda irmã no dia de seu batizado

Entre as histórias de minha infância, uma me faz dar graças à Deus pela invenção dos congelados.

Lembro bem do orgulho que senti vendo minha mãe grávida e da ansiedade para conhecer meu novo “irmão” ou “irmã”. Por isso, quando minha irmã nasceu e minha mãe veio para casa com ela,  senti que precisava fazer algo para retribuir a alegria de ter uma linda irmãzinha pra brincar comigo.

Era um tempo em que as parturientes comiam canja durante o período de “resguardo” que durava 40 dias e a canja precisava ser fresquinha, feita no dia. Tinha visto minha mãe,  tias, minha avó, as vizinhas, enfim, todas as mulheres adultas que eu conhecia, matarem galinhas num piscar de olhos,  com uma faca afiada ou com um pescoção e me achei super capacitada para o empreendimento.

Como criávamos galinhas no quintal, aproveitei um cochilo de minha avó que estava dando uma ajuda lá em casa e fui escolher, com olho clínico de uma expertise, a vítima para o sacrifício. Peguei a pobre coitada da galinha eleita, prendi entre os joelhos como já tinha visto as mulheres fazerem tantas vezes  e puxei com toda a fé de meus 10 anos, com as mãos nuas porque era pacifista e me recusava a usar armas, no caso a faca.

Mas a fé e a força de uma década completa de vida infelizmente não foram suficientes para dar cabo da tarefa. A bichinha escapou de minhas mãos magrelas e muito provavelmente com uma dor enorme no pescoço se pôs a cacarejar e correr em círculos pelo quintal, como só seria possível a uma vítima de tentativa de homicídio.

Eu apenas conseguia chorar de remorso e susto. A galinha sobreviveu meio torta por muito tempo; minha mãe não levou em conta minhas boas intenções e ganhei uma bronca enorme com direito à castigo enquanto meu irmão, insensível à todo aquele sofrimento e horror ria sem parar.

Desse dia em diante passei a achar uma invenção e tanto  aquelas galinhas de supermercado, congeladas, descoradas e mortinhas da silva graças aos serviços de outras pessoas. Sei que é um pouco tétrico, mas fazer o que se adoro canja?