Estou vivendo uma experiência interessante, gentil oferecimento das velhas portas aqui do apartamento.

Depois de várias tentativas para que a tinta aderisse, a única solução foi tirar as dita-cujas e levá-las para a casa do pintor. Lá, com espaço de sobra, ele irá aplicar um produto que vai arrancar as 200 camadas de tinta, lixar e finalmente pintar novamente.

Descontando o susto que levei ao ver o Madson, pintor e grafiteiro, empunhando uma imensa talhadeira e marreta de ferro para singelamente arrancar as portas das  dobradiças, tudo correu bem, mesmo porque consegui fazer com que ele usasse ferramentas mais delicadas, tipo meu martelinho e uma chave de fendas.

A falta das portas criou alguns problemas: gatos e cachorros estão circulando livremente por todos os ambientes o que significa mais especificamente que eles resolveram dormir sobre minha cabeça; privacidade passou a ser algo inexistente e o barulho da makita cortando azulejos ficou gravado para sempre em meus tímpanos.

Para relaxar durante a inevitável insônia depois de um dia agitado e coberto de poeira fiquei imaginando que vivia em um loft com todos aqueles  espaços abertos; é chic e está na moda.

Pensei se seria agradável ver a cozinha ou a sala o tempo todo. Para poder dormir imagino que as pessoas usem aquele troço feio que cobre os olhos e protege da claridade. Do jeito que me mexo durante o sono  ia acordar com acessório no dedão do pé.

Mas a vantagem é que poderia ter um janelão imenso, da altura da parede, com uma bonita paisagem, igual ao que se vê nos filmes.

Tudo teria que estar em seu lugar; nada de deixar os livros para arrrumar depois nem largar louça na pia;  o truque de chutar tudo para baixo da cama ou de fechar a porta da cozinha quando a campainha toca não funcionaria mais. A visita iria ver aquelas roupas pelo chão e a linda pilha de louça suja. A vantagem é que teria menos tralha enfurnada.

Concluí que gosto de ter uma casa tradicional, com portas, janelas e paredes e, assim que o infeliz desligou a britadeira lá na avenida — sim, porque alguma prestadora de serviços achou que sábado de madrugada é um ótimo momento para fazer consertos na rua —, virei para o canto e dormi.