garrincha2Aos 20 minutos do primeiro tempo do jogo entre Corinthians e São Paulo pelo Campeonato Paulista,  placar de zero a zero, entrei no taxi rumo à minha casa.

O motorista mirrado, caladão, cabelos e bigodes grisalhos dirigia tranquilo pelas ruas da Lapa, sem pressa nenhuma, aproveitando a tarde de domingo e o trânsito inexistente por conta do final de feriadão. Sem ter mais nada para fazer além de olhar a paisagem pela janelinha, prestei atenção ao som que vinha do rádio e o que estávamos ouvindo  era um locutor calmo comentando, em tom cpeleoloquial, sobre o clássico que se desenrolava no Pacaembú.

Nada de gritos, nenhuma histeria, nenhuma tirada espirituosa, nada!!! Pensei com meus inexistentes botões “Nossa! Acho que esse taxista não liga pra futebol! Aliás, olhe zico2só…encontrou um sujeito que fala de esportes no rádio e não berra!!!!! Estranho….”.

Mal havia concluído minha tosca linha de raciocínio que ligava homens, futebol, gritaria no rádio, torcida organizada, estádio lotado, trânsito caótico e pancadaria quando o  locutor super zen disse em voz baixa: ” Gol. Miranda abre o placar….”. Na mesma hora o taxista mudou de estação, correndo para uma daquelas emissoras tradicionais, bem a tempo de pegar a narrativa cheia de empolgação do locutor e o finalzinho do grito  ” …..OOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!! Mirandaaaaaaaaaaaaa!! !Mirandda, num toque de cabeça abre indioo placar no Pacaembúúúúúúúú´!!!!!!!” Então entra o comentarista, que sempre acompanha o locutor, completando” Miranda numa jogada ensaiada, faz um a zero pro São Paulo”

OK. Já que o motorista nem piscou também fiquei na minha. Achei que ele fosse corinthiano e estivesse aborrecido com o gol contra seu time de coraçãokaka2.

Voltamos a escutar a rádio zen…Três minutos depois, novamente a voz aveludada: ” Elias marca….” .A mão ágil do taxista mais uma vez voa para o painel do rádio e sintoniza o doido que aos berros anuncia: “EEEEEEEEEEELLLLLIIIAAAAaaassssssssssssssssssss!!!! Eliiiiaassss,Elias!!!!!!”. O suposto corinthiano que me levava para casa ergueu ligeiramente as sobrancelhas, mas calado estava e assim ficou. Eu sentadinhaaline no banco de trás pensava agoniada : “Mas quem, caramba, é esse Elias??? Pra qual dos times ele joga????”  Quando finalmente o locutor esportivo sossegou o facho, vem o comentarista  animado e feliz e esclarece: ” Gol de Elias igualando o placar no estádio do Pacaembú” e continuou explicando a “bonita jogada numa arrancada, etc”…usando todos os chavões futebolísticos possíveis, mas me permitindo saber que aquele era um gol de empate.

rivelinoNão aguentei e falei como quem não quer nada: “Esse jogo vai ser assim né?! Nervoso…Todo mundo querendo ganhar…O senhor torce pra algum dos times?” Depois de me conceder uma olhadinha pelo retrovisor, o motorista em voz baixa e gentil responde: “Sabe, eu não me importo com isso. Tanto faz quem ganha ou quem perde, futebol é só pra arrancar mais dinheiro do povão bobo que não ganha nada. É só pra encher o bolso dos jogadores e dos cartolas”didi

Concordei: “É, o senhor tem razão. Foi-se o tempo que jogador honrava a camisa do time! Nunca que um jogador de um time iria jogar no time adversário…”. “Hoje jogar futebol é uma profissão, um emprego; quem oferece melhor salário leva o funcionário”,  disse ele depois de outra olhadinha pelo retrovisor e emendou: ” Por isso que não torço pra time nenhum!”

 Com essa reflexão sobre o futebol dos dias de hoje encerramos a viagem. Desci do taxi e ao longe podia ouvir o barulho na torcida lá no Estádio do Pacaembú; o povão vibrando com cada jogada.

Algum tempo depois rojões estouram por todos os lados e a gritaria na casa do vizinho me leva a procurar o canal de esportes para ver o que estava acontecendo. Assisto o replay do gol marcado pelo jogador Cristian, aos 48 minutos do segundo tempo, levando o Timão à vitória.

CRISTIANAssisto também o gesto obceno que esse jogador fez para a torcida e para as câmeras de televisão, confirmando aquilo que o zen-taxista havia dito – não vale mais a pena.

 Agora em vez da alegria, o insulto.

Que coisa mais triste.