gravidez-infantilHoje foi dia de Luluzinha Camp.

Pra quem não sabe o que é isso eu explico: são dezenas de mulheres, reunidas um dia inteiro em um espaço bacana, discutido assuntos os mais diversos. Juntam-se mulheres de perfis variados, profissionais de várias áreas, casadas, solteiras, mães…

Mulheres tímidas e mulheres atiradas; mulheres que gostam de falar e mulheres que preferem ouvir; mulheres que compartilham suas experiências e que de repente dão um depoimento tão sincero e doloroso que faz com que todas se calem por um momento.

Mulheres que doando um pouco de si permitem às outras um aprendizado instantâneo; que ensinam a fazer um café especial, dividem receitas de beringela, trocam dicas de maquiagem, falam dos filhos, do trabalho, das dificuldades, dos blogs, das conquistas e das derrotas,  tiram fotos umas das outras e riem muito.

Mulheres reais.

Dos assuntos discutidos hoje um foi mais marcante para mim. No painel sobre Gênero, falavamos sobre a violência cometida especialmente contra  mulheres e , como não podia deixar de ser, o que aconteceu com uma menina de 9 anos, estuprada e grávida de gêmeos em consequência desse estupro e as declarações de representantes da igreja católica sobre isso.

Segundo notícias divulgadas essa menina vinha desde os 6 anos de idade sendo alvo de estupros cometidos pelo padastro. Provavelmente passava por isso calada, ou se mais alguém tinha conhecimento do fato não tomou nenhuma providência. Finalmente ela engravidou e foi decidido por sua mãe e pelos médicos que a acompanhavam que seria feito um aborto, em função dos altos riscos que a gravidez oferecia à sua saúde.

Eis que vem um bispo católico e declara que o estupro é um crime “menor” se comparado ao aborto! Disse também que todos os envolvidos no processo de interrupção da gravidez, que foi feito em hospital público e permitido por  lei, estavam excomungados. O Vaticano apoiou a posição do bispo brasileiro.

Agora temos a menina, sua mãe, a equipe médica e o  juiz, todos excluídos da igreja. O padastro não. Esse pode tranquilamente receber os sacramentos ajoelhado diante de um altar e, quem sabe, ter seus pecados perdoados. Se continuar estuprando, como é acusado de fazer com essa menina e também com a outra enteada  hoje com 14 anos, portadora de deficiências física e mental, basta ir alí no confessionário mais próximo e pedir perdão.

Não importa qual seja nossa religião ou crença; de qualquer ângulo que esse assunto seja olhado o que ele exala é o cheiro de uma podridão atroz.

Como nos ensinou o senhor Marx, com o advento da propriedade privada a mulher foi despersonalizada. Passou a ser parte dos “bens” materiais do pai, do irmão ou do marido.  Passou a ser tutelada, contida e cerceada ;  a ser objeto de troca através dos casamentos arranjados por interesses políticos e/ou para ampliação das propriedades masculinas e  a ter um valor monetário representado pelo dote.

A  igreja obviamente acatou e reforçou todas essas normas, já que as propriedades muitas vezes eram herdadas por ela e é obvio que quanto maior melhor; mulheres sem marido, pai ou irmão; sem dono,  amo ou  senhor, estavam destinadas ao abandono e ao esquecimento! A única função feminina era a maternidade.  À mulher cabia criar os filhos e manter tudo “em ordem” e de acordo com os desejos do dono da casa.

O poder masculino se solidificou muitas vezes através da violência, e como disse uma das participantes da nossa discussão, nas guerras, uma humilhação frequentemente infringida ao inimigo ainda hoje, é o estupro das mulheres. É a apropriação da “propriedade” do outro; é a demonstração suprema de poder.

Apesar de termos –  geralmente por nossos próprios méritos – conquistado espaços e direitos antes exclusivamente masculinos, a violência, a dominação, o desrespeito e a repressão continuam existindo contra as mulheres. Por vezes de forma velada, por vezes de maneira escancarada como o foi nas declarações  infelizes desse bispo e de seu colega do Vaticano.

Infelizmente, para sermos todas tratadas com igualdade, dignidade e respeito ainda falta muito.

Amanhã comemora-se (?)  o Dia da Mulher!!! É de chorar….

 

P.S: Foto aqui reproduzida, da menina alvo da excomunhão publicada no Globo.com