9:00 da manhã – Vou para a sala toda animada, pronta para transformar aquele armário sem graça numa peça digna de figurar na Casa Vogue,  mas de cara já percebo que a coisa não é “bem assim”, sabe?!  Havia esquecido que dentro do armário maior (foto ao lado) estão guardados anos de tralhas. Lá estão uma máquina de costura  Singer portátil, um faqueiro completo dentro de uma caixa de madeira, um edredon enorme, todas as toalhas de mesa do enxoval e respectivos guardanapos, toalhinhas de crochê, um saco enorme de plumante (material usado p/ fazer bonecas de pano), CDs, DVDs, fitas VHS antigas, várias folhas de cartolina, caixas de papelão para arquivo morto (desmontadas), o mesmo tipo de caixas em um tipo de material plástico conhecido como poliondas nas cores amarela e rosa, folhas de papel para presente, mantas de sofá, cobertores, o colarinho de proteção que o cachorro usou quando foi castrado, e mais um montão de coisas.

Concluo que preciso de caixas de papelão para guardar tudo isso antes de começar a lixar e o único lugar onde posso conseguir é o supermercado aqui perto. Ligo lá, explico o problema e o rapaz que atende gentilmente informa que no momento eles não têm nenhuma caixa para me dar. OK…

Falo com o encarregado da faxina aqui do prédio e descubro que se tivesse pedido um dia antes ia ter “um monte de caixas limpinhas dona Marcia” porque um morador tinha acabado de se mudar pra cá e “jogou um monte de caixas, mas o homem que recolhe papelão passou já e levou todas, que pena!!!” . Ok…

Odiando o moço do supermercado que negou umas porcarias de caixas e também o cara que se mudou ontem e não hoje, resolvo que vou começar a lixar assim mesmo, com tudo lá dentro, e seja o que Deus quiser.

Visto camiseta e calças velhas, amarro um lencinho bandana roxo na cabeça, coloco a máscara contra poeira e as luvas e, devidamente uniformizada, estou pronta. Ops…preciso de uma extensão pois o fio da minha linda lixadeira é curto; demoro um século pra encontrar uma e resolvida essa parte começo a lixar pelo tampo.

O que parecia super tranquilo vai se revelando um problema: a tal casquinha que finje que é madeira não sai fácil e levanta um pó infernal tipo um verniz; o que pensei que era uma superfície lisa não é – e a lixadeira vai dançando pelas ondulações, desgastando mais em uns pedaços que em outros (tomara que a tinta cubra). Não sei se é pra ir lixando sempre em linha reta e na mesma direção ou fazendo círculos; acho que o fabricante pensa que os homens que usam a ferramenta já nascem sabendo o que dispensa manual de instruções. Vou tentando de um jeito e de outro e a poeira se espalha por toda a sala.

Uma hora depois, com meus cílios envernizados, os olhos totalmente secos e o cabelo duro por baixo do lenço, chego à conclusão que a única roupa capaz de me proteger é a burca e um óculos de soldador, mas como esses itens não estão disponíveis no momento, acrescento óculos escuros sem grau ao meu uniforme e vou lavando o rosto de 10 em 10 minutos.

Duas horas depois, com o braço direito trêmulo, observo que não consegui quase nada e preciso parar porque tenho um compromisso no final da tarde. Considerando que terei que remover camadas de verniz em pó dos cabelos e do corpo todo achei melhor ir para o banho com algumas horas de antecedência. 

Por todos os deuses artesões, no que fui me meter????